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RISCOS PSICOSSOCIAIS: O Risco que ainda não aparece no mapa dos riscos e perigos da obra

2026 — Versão 1.0

Autor: Eng.º Alexandre Tiberio

Categoria: SST


1. Introdução

A Segurança e Saúde no Trabalho evoluiu significativamente nas últimas décadas. Atualmente, a identificação de perigos, a avaliação de riscos e a implementação de medidas preventivas constituem pilares fundamentais da gestão da prevenção nas organizações. Independentemente do setor de atividade, dificilmente se concebe hoje um processo preventivo que não contemple a identificação dos perigos existentes, a avaliação dos riscos associados e a definição das respetivas medidas de controlo.

Ao longo deste percurso foram desenvolvidas metodologias e procedimentos que permitiram integrar de forma consistente riscos físicos, químicos, biológicos, mecânicos e ergonómicos na gestão da prevenção. A maioria dos técnicos consegue hoje identificar estes perigos, avaliar a exposição dos trabalhadores e estabelecer prioridades de intervenção com base em critérios técnicos amplamente reconhecidos.

Contudo, permanece uma questão que merece reflexão.

Se a legislação portuguesa determina que todos os riscos suscetíveis de afetar a segurança e a saúde dos trabalhadores devem ser identificados, avaliados e controlados, por que motivo os fatores de risco psicossociais continuam, em muitas organizações, fora do mesmo processo técnico utilizado para gerir os restantes riscos profissionais?

Mais do que discutir a importância dos riscos psicossociais, talvez seja altura de questionar se estes estão verdadeiramente integrados nos instrumentos de gestão da prevenção que utilizamos diariamente.

É precisamente sobre esta realidade que se desenvolve a presente reflexão.


2. Enquadramento

Recentemente, durante uma conversa com um colega da área, surgiu uma situação que acabou por despertar uma reflexão importante.

Contava-me que trabalhava durante a noite numa empresa e, durante o dia, noutra, procurando aumentar o seu rendimento. Explicava ainda que, há vários dias, não conseguia usufruir do descanso semanal nem dedicar tempo à família.

Enquanto o ouvia, lembrei-me imediatamente dos fatores de risco psicossociais identificados em metodologias como o FPSICO e o COPSOQ. Muitas das condições que descrevia correspondiam precisamente a fatores relacionados com a carga de trabalho, os horários, a recuperação física e mental, o equilíbrio entre a vida profissional e familiar e a organização do trabalho.

Quando lhe referi esse enquadramento respondeu apenas:

“Nunca tinha pensado nisso dessa forma.”

A resposta foi simples, mas suficiente para levantar uma questão que continua a acompanhar a nossa investigação.

Se um trabalhador não reconhece estas condições como fatores de risco, será que a organização também as reconhece? Estão identificadas na avaliação de riscos? Fazem parte do mapa de riscos e perigos da obra? Originam medidas preventivas específicas? Ou continuam a ser encaradas apenas como uma consequência normal da atividade profissional?


3. Desenvolvimento

Nas últimas décadas foram desenvolvidas diversas metodologias que permitem identificar e avaliar os fatores de risco psicossociais de forma estruturada e cientificamente fundamentada. Estas metodologias possibilitam caracterizar a exposição dos trabalhadores, identificar fatores críticos e estabelecer prioridades de intervenção.

Por isso, talvez o maior desafio já não resida na avaliação propriamente dita.

O verdadeiro desafio começa quando a avaliação termina.

Depois de concluídos os questionários, tratados os dados e emitido o relatório técnico, a organização continua confrontada com um conjunto de questões essencialmente operacionais.

Como transformar aqueles resultados num plano de intervenção?

Como definir prioridades?

Como acompanhar a implementação das medidas de controlo?

Como verificar se essas medidas produziram os resultados esperados?

Como demonstrar, meses depois, que um risco inicialmente classificado como elevado deixou efetivamente de representar um nível de risco não aceitável?

Estas questões são familiares a qualquer Técnico de Segurança no Trabalho.

Na prática, muitos relatórios terminam com a apresentação dos resultados e de um conjunto de recomendações gerais. Contudo, a gestão da prevenção não termina nesse momento. Tal como acontece com qualquer outro risco profissional, torna-se necessário planear as medidas de controlo, acompanhar a sua implementação, verificar a respetiva eficácia e reavaliar a evolução dos riscos identificados.

É precisamente nesta fase que entendemos existir uma oportunidade de evolução.


4. Uma Proposta Metodológica para Gestão dos Riscos Psicossociais

Partindo desta reflexão, encontra-se atualmente em desenvolvimento uma proposta metodológica que procura integrar os riscos psicossociais no mesmo processo técnico utilizado para gerir os restantes riscos profissionais.

A proposta assenta em dois instrumentos complementares.

O primeiro corresponde ao Mapa de Verificação e Valoração dos Riscos Psicossociais. A sua finalidade consiste em transformar os resultados da avaliação num instrumento de gestão da prevenção. Para cada fator de risco são identificados os perigos associados, os riscos correspondentes, o nível de exposição, a gravidade, o índice de risco, a respetiva classificação, o significado técnico da avaliação e o grau de intervenção recomendado. Paralelamente, são definidas as medidas de controlo propostas, os respetivos responsáveis e os prazos previstos para a sua implementação.

O segundo corresponde ao Mapa de Reavaliação e Controlo dos Riscos Psicossociais. Este instrumento concentra-se exclusivamente nos riscos classificados como não aceitáveis, permitindo acompanhar a implementação das medidas de controlo, proceder à respetiva validação técnica e reavaliar a evolução dos fatores intervencionados.

Desta forma, a avaliação deixa de constituir um momento isolado e passa a integrar um processo contínuo de gestão, onde cada risco pode ser acompanhado desde a sua identificação até à verificação da eficácia das medidas implementadas.

Importa salientar que esta proposta não pretende substituir metodologias reconhecidas de avaliação dos riscos psicossociais. Pelo contrário, parte dos resultados produzidos por essas metodologias e procura complementá-las através de uma estrutura operacional orientada para a gestão, acompanhamento e melhoria contínua da prevenção.


5. Conclusão

A evolução da Segurança e Saúde no Trabalho demonstra que a prevenção nunca foi um processo estático. À medida que surgem novos conhecimentos científicos e novas realidades organizacionais, torna-se igualmente necessário adaptar os instrumentos utilizados para gerir os riscos profissionais.

Os riscos psicossociais representam um exemplo claro dessa evolução.

Hoje já não se discute a sua existência nem a sua influência na saúde, na segurança e no bem-estar dos trabalhadores. O verdadeiro desafio consiste em garantir que deixam de ser tratados como um tema paralelo e passam a integrar, de forma consistente, o mesmo processo técnico de gestão da prevenção aplicado aos restantes riscos ocupacionais.

Porque, independentemente da sua natureza, um risco só pode ser verdadeiramente prevenido quando é reconhecido, identificado, avaliado, valorado, acompanhado e sujeito a medidas de controlo proporcionais ao nível de risco identificado.


5. Reflexão Profissional

Foi precisamente esta reflexão que motivou o desenvolvimento do projeto ATC PSYCH.

Mais do que desenvolver uma nova metodologia de avaliação, procuramos estudar de que forma os resultados produzidos por metodologias reconhecidas podem ser integrados num processo estruturado de gestão, acompanhamento e melhoria contínua dos riscos psicossociais.

Trata-se de um trabalho de investigação aplicada que continua em desenvolvimento, suportado pela análise comparativa de diferentes metodologias internacionais, pela evidência científica disponível e pela experiência prática em contexto organizacional.

Talvez o próximo passo da Segurança e Saúde no Trabalho não consista apenas em aperfeiçoar a forma como avaliamos os riscos psicossociais.

Talvez consista, sobretudo, em garantir que esses riscos passam a fazer parte do mesmo processo técnico de gestão da prevenção que utilizamos diariamente para controlar todos os restantes riscos profissionais.


Autor

Eng.º Alexandre Tiberio


Nota editorial

Este artigo integra o conteúdo institucional do Blog ATC-SST Engenharia e foi elaborado em conformidade com a Política Editorial e de Curadoria da organização.