2026 — Versão 1.0
Autor: Eng.º Alexandre Tiberio
Categoria: SST
1. O Seminário e a Relevância Crescente do Tema
Os riscos psicossociais no trabalho constituem atualmente um dos maiores desafios para a Segurança e Saúde no Trabalho. Embora muitas vezes invisíveis, os seus efeitos podem comprometer a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida dos trabalhadores.
No passado dia 7 de maio de 2026, participei no Seminário do Dia Nacional de Prevenção e Segurança no Trabalho, realizado no Cinema Charlot – Auditório Municipal de Setúbal, subordinado ao tema «Garantir Ambientes de Trabalho Saudáveis e Bem-Estar Psicossocial». O auditório encontrava-se praticamente lotado, demonstrando claramente que os riscos psicossociais deixaram de ocupar um papel secundário para assumirem uma importância crescente nas discussões ligadas à Segurança e Saúde no Trabalho.
O encontro reuniu representantes da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), profissionais da saúde ocupacional, investigadores académicos, representantes sindicais e diversos profissionais ligados à prevenção. Mais do que um simples evento técnico, o seminário revelou uma preocupação cada vez mais evidente relativamente ao impacto psicológico que o trabalho exerce sobre a vida das pessoas.
2. A Complexidade dos Riscos Psicossociais
Uma das primeiras reflexões que retirei das intervenções foi a enorme complexidade que caracteriza os riscos psicossociais. Ao contrário de muitos riscos físicos existentes nas obras, na indústria ou nos escritórios, estes raramente são visíveis de forma imediata. Não possuem normalmente um instrumento de medição direta, uma evidência fotográfica clara ou um momento exato de ocorrência. Desenvolvem-se gradualmente através da pressão contínua, da insegurança, da instabilidade profissional, do desgaste emocional e da deterioração das relações humanas no contexto laboral.
Ao longo dos debates tornou-se igualmente evidente que muitas organizações continuam a apresentar dificuldades na identificação e reconhecimento destes riscos. Em diversas situações, o sofrimento psicológico é ainda interpretado como uma fragilidade individual, quando frequentemente resulta de fatores organizacionais, económicos ou sociais que ultrapassam a esfera pessoal do trabalhador.
3. A Influência das Condições Económicas
Desde o meu primeiro contacto com esta temática existe um aspeto que considero frequentemente subvalorizado nos debates técnicos: a influência dos baixos salários e da instabilidade financeira na saúde psicológica dos trabalhadores. Esta reflexão não é nova para mim e já havia sido defendida anteriormente em contexto académico. Ainda assim, continuo a acreditar que a insegurança económica constitui um dos principais fatores geradores de riscos psicossociais.
Um trabalhador permanentemente preocupado com despesas familiares, habitação, alimentação, deslocações, créditos ou incertezas quanto ao futuro profissional dificilmente consegue manter um equilíbrio emocional sustentável. A pressão financeira acompanha-o para além do local de trabalho, interfere no descanso, afeta as relações familiares e reduz significativamente a capacidade de recuperação física e psicológica
4. Diferentes Visões sobre o Futuro
Foi particularmente interessante observar a diferença de perspetivas existente entre alguns setores académicos e institucionais e os representantes sindicais presentes no seminário. Enquanto algumas intervenções demonstravam confiança na evolução dos mecanismos de prevenção e gestão dos riscos psicossociais nos próximos anos, representantes da UGT e da CGTP-IN apresentaram uma visão bastante mais prudente relativamente à velocidade dessa transformação.
Esta divergência demonstra que os riscos psicossociais não dependem exclusivamente da existência de legislação, formação ou procedimentos internos. Dependem igualmente da cultura organizacional, da valorização das pessoas, da estabilidade económica e das próprias condições sociais em que o trabalho é desenvolvido.
5. O Impacto nas Mulheres Trabalhadoras
Outro tema amplamente debatido durante o encontro foi o impacto particularmente significativo destes riscos sobre as mulheres trabalhadoras. Em muitos casos, continuam a coexistir exigências profissionais crescentes com responsabilidades familiares e domésticas que permanecem concentradas na mesma pessoa. Esta acumulação permanente de funções contribui para níveis elevados de desgaste emocional, ansiedade e exaustão psicológica.
A reflexão apresentada durante o seminário reforçou a necessidade de considerar as especificidades de cada contexto social e familiar quando se pretende compreender a origem e a evolução dos riscos psicossociais no trabalho.
6. Os Novos Desafios da Prevenção
Durante muitos anos, a prevenção em Segurança e Saúde no Trabalho concentrou-se essencialmente nos riscos físicos. Quedas em altura, máquinas, eletricidade, ruído, agentes químicos e outras situações perigosas constituíram o foco principal das estratégias preventivas. No entanto, a realidade atual exige uma abordagem mais abrangente.
Hoje fala-se cada vez mais de burnout, ansiedade, assédio moral, pressão psicológica excessiva, isolamento profissional e desgaste emocional. Muitos destes fenómenos não resultam de acontecimentos isolados, mas antes de processos prolongados de desequilíbrio organizacional que se desenvolvem de forma silenciosa ao longo do tempo. A prevenção do futuro exigirá uma capacidade crescente para identificar estes sinais invisíveis antes que produzam consequências graves para os trabalhadores e para as organizações.
7. Reflexão Profissional
A participação neste seminário permitiu-me reforçar uma convicção pessoal que considero cada vez mais relevante. A Segurança e Saúde no Trabalho não pode limitar-se à prevenção dos acidentes físicos. A proteção do trabalhador exige igualmente a preservação da sua estabilidade emocional, psicológica e social.
Os riscos psicossociais continuarão a representar um dos maiores desafios da prevenção nas próximas décadas. O verdadeiro equilíbrio entre produtividade, sustentabilidade económica e dignidade humana dependerá da capacidade das organizações para reconhecer que a saúde mental dos trabalhadores é também uma condição essencial para o sucesso das próprias empresas. Talvez seja precisamente nesse reconhecimento que começa a verdadeira prevenção.
Autor:
Eng.º Alexandre Tiberio
Nota editorial
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